Criatividade sem contexto é apenas surpresa. E surpresa dura o tempo de um scroll.
Existe uma imagem romântica de como nasce uma boa ideia: um profissional, um arquivo em branco, um lampejo. Na minha experiência, quase nunca é assim. A ideia nasce antes, quando ninguém parece estar criando: alguém repara em algo que já estava ali. Uma contradição no briefing. Um comportamento que os números não explicam. Um jeito de falar que a categoria inteira repete sem perceber.
A esse ato de reparar dou o nome de percepção. Ela vem antes da execução, antes da técnica, antes da apresentação bonita. E é o que separa a ideia que só chama atenção da que desperta algo nas pessoas.
Percepção é método, não talento
Percepção costuma ser tratada como dom, o famoso “olho clínico”. Prefiro tratá-la como disciplina: algo que se treina, se repete e, principalmente, se coloca dentro do processo antes que a pressa do prazo empurre todo mundo direto para a execução.
Estes são os quatro hábitos que eu procuro levar para todo projeto:
Na prática
O projeto Red Magic Rosa Vermelha é um claro exemplo do que estamos falando. No cenário em que estava envolvido, todas as marcas apontavam para os estereótipos clássicos de Halloween: bruxa com chapéu pontudo, abóboras com faces esculpidas, fantasmas, etc. Não! Vamos ter outra conversa, vamos ter outra abordagem. Vamos para um caminho místico, com mais "magia" e mais expressão, foi o que eu sugeri.
O resultado foi um anúncio aclamado pela criatividade, pela forma de se expressar e garantiu além do ótimo engajamento em redes sociais, desdobres para mídias offline e menções em portais conhecidos como Clube de Criação e Ads of the World.
Não, não foi mera vaidade do criativo por ter reconhecimento pelo trabalho, mas pela possibilidade der levar algo novo e de uma perspectiva que poucas marcas estavam observando.
O que muda quando o olhar vem primeiro
A ideia deixa de parecer um palpite e passa a parecer uma consequência.
É muito mais fácil defender diante de um cliente algo que nasceu de uma observação do que algo que nasceu de um “achei legal”.
O volume de ideias deixa de ser a medida.
Quem enxerga bem precisa de menos ideias para chegar à certa, porque descartou cedo as que respondem a um problema que não existe.
A ideia ganha chance de durar.
O que é verdadeiro sobre as pessoas continua verdadeiro depois que a campanha sai do ar.Perceber, porém, é só o começo. Depois de enxergar, é preciso decidir o que fazer com o que se viu, e quase sempre há mais caminhos do que tempo. É aí que entra o critério.


